Sobreviver e subviver


Comportamento & Marketing Pessoal

SAPO Emprego

Por Mário Ceitil

O desemprego é provavelmente o maior flagelo social resultante da crise económica nas sociedades pós-modernas. Não se repercute «apenas» no agravamento dramático dos níveis de vida das pessoas, atinge núcleos mais profundos da sua identidade como cidadãos que, em grande medida, se estrutura nos enquadramentos das respetivas atividades e dos cargos profissionais.
O afastamento involuntário e prolongado da «atividade produtiva» (sobretudo o desemprego de longa duração) acentua a fragmentação do ‘self’, levando à perda de parte importante do sentido existencial; a pessoa sente-se uma coisa «inútil» e «sem valor», cai numa situação de «periferias de vida» que, pela ansiogenia e pelos mecanismos regressivos que convoca, vai depauperando progressivamente as capacidades e o potencial.
Com o tempo, pode começar a surgir o sentimento de já não se ser capaz, que constitui o húmus emocional que irriga a perceção cognitiva de perda do sentido de individualidade. Este sentimento, ao reforçar a crença autoconfirmada da ausência de valor, destrói a esperança e corrói a capacidade de pensar e criar futuros alternativos.
Neste contexto, o desemprego prolongado mina não só a qualidade de vida mas a própria qualidade da «existência».
Numa altura em que o Estado está definitivamente falido na alegada vocação iluminista de «Estado Providência» e com as empresas cada vez com menos condições para cumprir o que ao longo das décadas do pós-guerra se foi acreditando ser a sua missão fundamental (serem «geradoras de emprego»), os desempregados têm pela frente (mais) um «empreendimento árduo»: «dar um sentido à própria vida, onde a centração do indivíduo já não é garantida pelas instituições».
Isto não é uma tarefa fácil. Habituámo-nos a ver a vida profissional como um dos principais alicerces da cidadania, da individualidade, a tal ponto que para muitas pessoas essa área acaba por ser a dimensão principal da vida (mesmo que o não afirmem explicitamente). Por isso há quem sinta um enorme vazio quando passa à situação de reforma e constata que não é o «Eldorado» mágico, a concretização das fantasias de bem-estar e felicidade.
Daí que o grande desafio que se coloca, maioritariamente aos desempregados, mas também a muitos reformados, não é somente «sobreviver», mas também «não subviver»; ou seja, «não permanecer aquém das próprias possibilidades inexpressas». Trata-se de não nos deixarmos condicionar em demasia pelas circunstâncias adversas, que têm de ser vistas como realidades passageiras, e sobretudo de mantermos um núcleo de identidade pessoal que resista às «intempéries».
Esta atitude de afirmação pessoal é essencial para «agirmos», em vez de «sermos agidos pelas circunstâncias»; e «agir livremente» é «tomar posse de si», o que constitui um dos bastiões da grandeza pessoal.

Mário Ceitil é diretor associado da CEGOC/ FranklinCovey e professor universitário; mceitil@cegoc.pt

Nota: artigo publicado na edição 53 da revista «human» (maio de 2013)

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