Descobrir o prazer de trabalhar


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O Princípio do Prazer

Com alguma frequência temos ouvido falar em cortes salariais em diversos sectores económicos, existindo inclusivamente alguns estudos que apontam na direcção de que muitos aceitariam ver reduzido o seu salário mensal tendo como justificação o momento económico actual.

Eu explicaria o fenómeno, o qual verifico, de uma outra forma, talvez mais optimista. O princípio do prazer, segundo a Psícanalise, assume-se como um desejo de gratificação imediata do indivíduo e traduz-se na busca do prazer e fuga à dor. Por contraste, o princípio da realidade, modifica o princípio do prazer e caracteriza-se pelo adiamento da gratificação.

O que pretendo com esta pequena teoria é demonstrar que ao longo da nossa vida educacional e profissional somos educados e treinados para um amadurecimento progressivo que nos permite aprender a suportar a dor e adiar a gratificação – princípio da realidade. Assim, contrariando esta lógica, surge de forma mais espontânea uma geração epicurista que se rege mais pela procura mais imediata do prazer, não só na vida social, mas também a nível profissional, estando dispostos inclusivamente a baixar o seu salário para o conseguir.

Naturalmente que acredito que qualquer redução de salário consciente do trabalhador aconteça por 2 motivos, um positivo e outro negativo. Realisticamente, e começando pelo negativo, boa parte dos profissionais apenas aceitaria baixar o seu salário em caso de despedimento iminente.

O trabalho é essencial e o dinheiro é importante mas cada vez mais os profissionais estão dispostos a mudar de emprego de forma a assegurar outro tipo de necessidades de satisfação pessoal e bem-estar – este o caso positivo. Obviamente esta é uma massa de pessoas que, geralmente paga acima da média, e com a vida económica estabilizada, se disponibiliza para investir numa posição ou sector com o qual mais se identifique e sinta satisfação com o seu quotidiano profissional.

No segmento no qual operamos, cargos médios e de topo, juntamente com os clássicos motivos de saída ligados à não progressão funcional, à falta de autonomia, às promessas não cumpridas e à falta de estratégia das empresas, começamos a ouvir profissionais que fazem de forma muito consciente a troca de um projecto por outro sem valorizar o aspecto económico. Estas são pessoas que procuram o prazer e a felicidade também no seu trabalho bem como a motivação diária para o que fazem.

O sector da Construção, lentamente a adquirir uma dimensão internacional, é um dos quais os factos relatados mais acontecem. Os profissionais deste sector estão habituados a trabalhar por projectos nos quais permanecem em tempo médio 2 ou 3 anos. Por gostarem de acompanhar uma obra do início ao fim dificilmente procuram novo emprego no decorrer da mesma pelo que geralmente o motivo de mudança é o final da obra que acompanharam. Nesse momento o profissional procura nova obra de maior complexidade, estando para isso inclusivamente disposto a algum período de inactividade.

Dado tratar-se de um mercado pago acima da média, a mudança profissional ou o investimento em novos projectos com recurso a baixa de remuneração é frequente. Continuamente somos confrontados com candidatos que procuram um novo projecto técnicamente mais desafiante ou, nos profissionais mais sénior, aqueles que procuram uma última “grande obra”

Decorrente desta análise notamos ainda outra tendência: os profissionais técnicos, relativamente aos não técnicos ou comerciais, são profissionais com um gosto mais genuíno pelo que fazem e pelos projectos nos quais estão envolvidos pelo que estão assim mais permeáveis à mudança profissional sem análises profundas do aspecto económico.

Baudelaire dizia que para esquecer o tempo apenas temos o prazer e o trabalho. Há quem cada vez mais os junte.

Nuno Veríssimo

Senior Consultant Msearch

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